sábado, 29 de maio de 2010

sos amazonas, poesias

Álbum do Rio Acre

Emilio Falcão

A reedição do Álbum do rio Acre, de Emilio Falcão, representa a preservação do maior acervo iconográfico relativo à Revolução Acreana e da vida sócio econômica dos Seringais do Rio Acre.

Implantada sobre terras expropriadas aos grupos tribais a empresa extrativista da borracha, no Acre, como em toda a Amazônia, obedeceu ao rigoroso sistema de Aviamento, que consiste no fornecimento, mediante crédito, de mercadorias ou bens de consumo e produção.

Para manutenção desta cadeia de aviamento e da produção de borracha natural foi atraída mão-de-obra imigrante, procedente na sua maioria do nordeste. As levas sucessivas de trabalhadores foram assentadas ao longo dos rios Juruá, Purus, Envira, Tarauacá, Iaco e Acre, a partir de 1870. Compelidos pelo desejo de fazer fortuna e pela situação de miséria gerada pela seca e aridez da região de origem, os seringueiros promoveram o esplendor dos seringais enquanto eles próprios ficavam ao fatalismo das teias do aviamento. Os seringueiros constituíram-se protagonistas de uma história de coragem e trabalho quase que totalmente ausente dos compêndios da historiografia oficial.

Sustentada na mão-de-obra do seringueiro a atividade extrativa perdurou até os dias atuais, alternando ciclos de hegemonia e crise.

Do período de prosperidade econômica restam-nos algumas peças de relevância cultural: diversos acervos hemerográficos, objetos de cultura material, fotografias, etc.

A galeria de retratos que compõem as primeiras páginas do Álbum – homenagem aos revolucionários – constitui documentação única que possibilita resgatar a imagem dos protagonistas da revolução acreana, liderada por Plácido de Castro. Ao registrar através de fotografias os seringais do baixo Purus, do baixo e alto Acre, da sua foz até Xapuri, Emilio Falcão não apenas documenta a paisagem do novo território conquistado aos bolivianos, mas os tipos humanos, os habitantes, os costumes da época, os tipos de embarcações (gaiolas, vaticanos, batelões, etc.), enfim, aspectos de uma cultura que surgia com vigor em plena Amazônia, porém hoje decadente.

Tanto o registro fotográfico como o registro documental-escrito são objetos da política de ação patrimonial da Fundação de Desenvolvimento de Recursos Humanos da Cultura e do Desporto que visa recuperar, preservar e popularizar as fontes históricas.

Concluímos com Emilio Falcão: “é um livro feito com muito sacrifício. Deve valer alguma coisa”. Certamente valeu!




Jacó César Piccoli

sos amazonas, poesias

Poesia e Poetas do Amazonas

Tenório Telles/ Marcos Frederico Krüger

A poesia que se produz no Amazonas, como se percebe nesta antologia, reflete os caminhos percorridos pela Literatura Brasileira. Poesia e Poetas do Amazonas é um painel ilustrativo da produção de nossos autores, desde os primeiros registros de Henrique João Wilkens, com seu poema épico a Muhuraida, de 1785, a Efraim Amazonas, com Estação dos espelhos, publicado em 2002. Cinqüenta e três poetas significativos da história da nossa literatura estão representados por uma seleção de textos e o registro de suas obras.

Foram selecionados os poemas que conquistaram o reconhecimento da crítica e se firmam no gosto popular, como “Encontro das águas”, de Quintino Cunha, “Rio Negro”, de Paulino de Brito, “Noturno do bairro dos Tocos”, de Luiz Bacellar, e “Estatutos do homem”, de Thiago Mello. Estão representados os textos que, segundo os organizadores, possuem qualidade estética ou importância histórica capaz de assegurar a permanência de seus autores no cânone literário do Amazonas.

O livro se estrutura como uma viagem através do tempo, em que o leitor tem diante de si um amplo painel de nossas letras, expressivo do que se produziu no passado e do que se produz na atualidade em matéria de poesia. O critério de apresentação dos autores é cronológico, possibilitando uma visão evolutiva da arte do verso no Amazonas. O trabalho é enriquecido por um perfil biográfico de cada autor, o que ajuda o leitor a ter um melhor entendimento do contexto histórico em que o mesmo se insere.

Além do valor histórico, este trabalho se afirma pelo seu significado estético, expressivo da sensibilidade e da força poética dos autores representados. Poesias e poetas do Amazonas têm o mérito especial de trazer ao público uma coletânea de poemas, ilustrativa das mais variadas tendências e matizes da lírica regional. Nessa viagem mágica, como não se emocionar com os versos de Jonas da Silva, Violeta Branca, L. Ruas, Astrid Cabral, Farias de Carvalho, Zemaria Pinto...

Tenório Telles e Marcos Frederico prestam, com este livro, uma importante contribuição à memória literária do Amazonas. Trata-se de um trabalho de leitura obrigatória por parte dos estudiosos das manifestações culturais da Amazônia e especialmente daqueles que amam a literatura.




Isaac Maciel

quinta-feira, 27 de maio de 2010

A INDENTIDADE ÍNDIGINA, E O PROGETO VÍDEO NAS ALDEIAS

Reproduzir a imagem, espelhar, revelar, meditar e repercutir são alguns dos significados de refletir, do latim reflectere; palavra que no Projeto Vídeo nas Aldeias remete a toda a sua amplitude de significados. Diante da concretização de sua própria imagem, não mais através do histórico objeto de escambo, o espelho, mas do vídeo, comunidades indígenas passaram a "refletir" sobre si e sobre o outro caracterizando o dinâmico processo de (re)construção de sua identidade.

O vídeo como recurso para que estas comunidades vivenciassem a alteridade, fortalecendo sua autonomia e saindo do isolamento é o eixo central do projeto que surgiu em 1987 e foi concebido como um programa de intervenção direta pelo atual coordenador do projeto, o fotógrafo e videomaker Vincent Carelli. Inicialmente foram estabelecidas algumas parcerias com membros do CTI (Centro de Trabalho Indigenista), especialmente com as antropólogas Virgínia Valadão e Dominique Gallois, além de muitos outros profissionais. Atualmente, Vídeo nas Aldeias é parte de uma ONG independente que leva o mesmo nome do projeto e tem a co-direção da editora e diretora de documentários Mari Correa. O site da ONG, em fase final de montagem, deverá ser publicado a partir de dezembro no endereço http://www.videonasaldeias.org.br

Evidenciando a identidade como um processo dinâmico, a memória adquire uma nova dimensão quando torna possível o confronto de imagens do presente com a lembrança de suas práticas.As comunidades indígenas, filmadas falando sua língua materna, assistem as próprias imagens e a de outros grupos de índios, rompendo com um certo isolamento existente entre os grupos, e deles com relação à sociedade em geral. Neste processo, reconhecem igualdade e diferenças: aqueles que falam a mesma língua, que também sofreram invasão de suas terras, ou que perderam parentes, vítimas de doenças provenientes do contato com o não índio; formando estrategicamente uma auto imagem e construindo novas formas de representação.

O Projeto produziu uma série de 35 documentários, com versões em cinco línguas, divididos em três diferentes linhas: vídeo processo, que trata o encontro de vários povos com sua imagem e a reflexão dos índios acerca de sua auto - representação; vídeo denúncia, sobre conflitos emblemáticos da atual situação dos índios no Brasil; vídeos institucionais e projetos alternativos de desenvolvimento, propostos por algumas comunidades, ilustrando formas de controle sobre as relações de contato e os processos de transformação pelos quais vem passando. Atualmente, o projeto está numa nova fase representada por realizações indígenas. "Nesta linha está direcionada toda a ênfase atual do projeto que, em última instância, é a razão de ser de Vídeo nas Aldeias", diz Vincent Carelli.

Entre os documentários realizados nesta nova fase destacam-se: uma série de dez vídeos educativos intitulada Índios no Brasil, elaborados para a TV Escola do MEC, o curta-metragem Índio na tevê, realizado para a exposição dos 50 anos da TV brasileira, dirigidos por Carelli, e ainda uma série de novos filmes realizados pelos índios, entre os quais, o mais recente, é do realizador indígena Divino Tserewahú, da etnia Xavante, intitulado Wai'á rini.

Entre as importantes contribuições trazidas por estas imagens está o afastamento da idéia de equipamentos eletrônicos, TVs e câmeras de vídeo, como símbolos de degradação da cultura indígena e de perda da identidade. O confronto com a própria imagem torna possível a decisão do próprio grupo de selecionar elementos culturais externos e internos que devem ou não ser mantidos. O documentário Vídeo nas Aldeias revela, por exemplo, os índios resgatando, perante as câmeras, a furação dos lábios que não era feita há vinte anos e, em outra ocasião, o não reconhecimento pelos índios, de sua própria imagem, quando assistiram cenas de um ritual no qual não estavam, segundo eles, devidamente trajados e ornamentados.

Um elemento diferenciador destes documentários é que não existem comentários externos, apenas as falas dos índios estão representadas. Para a antropóloga Dominique Gallois, a mídia difunde, freqüentemente em forma de denúncia, as perdas sofridas por esta comunidade, com um certo fascínio pelos saberes tradicionais e saudosismo diante do desaparecimento destas técnicas ancestrais. Desta forma a situação indígena é abordada parcialmente, desconsiderando as novas demandas específicas destas comunidades. "Nossa sociedade se move, se expande, enquanto a deles tem que permanecer fixa, imutável, para atender a necessidade que nós temos de uma saudade da tradição. Em contraposição a esse desejo, eles mostraram que tradições são sistemas intelectuais dinâmicos e capazes de mudar. Infelizmente, o que a mídia veicula habitualmente não são esses processos riquíssimos de reflexão dos índios sobre a mudança. Seus dinamismos culturais continuam sendo desconhecidos, na medida em que suas vozes continuam sendo caladas, cobertas pelas vozes dos que se julgam especialistas" - afirmaram Dominique e Vincent em artigo para a Revista de Antropologia, Artes e Humanidades. Revela-se aqui um contraponto à visão comum da mídia sobre os índios, calcada muitas vezes numa visão reducionista.

Assim, em cerca de 15 aldeias, de diferentes partes do país, foram implantados centros de produção e videotecas que dão suporte para cursos e palestras para a formação de documentaristas indígenas. O Programa de Índio, realizado em parceria com a TV da Universidade Federal do Mato Grosso, surgiu desta experiência e veiculou quatro programas que atingiram rede nacional através da TVE do Rio de Janeiro. A comunidade indígena participou de todo o processo de produção e apresentação do programa.

Desde 1996, quando foi encerrada a experiência do Programa de Índio, foi possível a percepção de que havia pela frente todo um processo de formação a ser percorrido, para que os índios estivessem preparados para ocupar algum espaço na mídia. Por outro lado, notou-se também uma importância maior em trabalhar a linguagem, elaborada e profunda do documentário do que a superficialidade da reportagem televisiva. O horizonte atual do projeto é formar uma primeira geração de documentaristas indígenas. Estes serão a semente de outras vocações, até ocupar um espaço próprio na televisão pública brasileira.

A partir de 1997 o projeto começou a investir de modo mais organizado e sistemático na capacitação dos índios, através de oficinas de realização nas aldeias e de oficinas de edição na sede em São Paulo. O projeto passou a se concentrar em três pólos: o Baixo Xingu, com os grupos Suyá e Ikpeng; no Acre com os Ashaninka, Kaxinawá e Manchineri, e no Mato Grosso com as Aldeias Xavante de Pimentel Barbosa e Sangradouro."Nesta linha de produção, voltada para a formação de Realizadores Indígenas, somos nós que colaboramos com os vídeos deles. Algo fundamental que representa um salto qualitativo na realização dos objetivos do projeto. Os cinegrafistas indígenas abandonam a simples descrição visual, no estilo da home video, direcionado apenas para o público de sua própria aldeia. Eles se tornam realizadores, apropriando-se da linguagem cinematográfica e articulando a sintaxe da imagem. Em suma, fazem filmes sobre sua realidade, não somente para seus semelhantes, mas também para um público aberto, desconhecedor da sua especificidade", diz Vincent.

Privilegiando a auto-gestão dos projetos, que surgem a partir das demandas da comunidade, Vídeo nas Aldeias acaba por fortalecer as comunidades locais que passam a gerenciar suas necessidades, os projetos e seus recursos, desenvolvendo uma autonomia em relação ao estado e às agências assistenciais.

Como autores e executores dos vídeos, os índios decidem o que deve ser objeto e objetivo das filmagens, apresentando assim uma imagem de si mais adequada aos seus interesses e estabelecendo uma nova interação com a sociedade. "Com o nosso distanciamento e a nossa curiosidade, ajudamos os alunos a se distanciarem o necessário para produzirem um olhar sobre si próprios, além de transmitirmos as técnicas de registro e edição. A nossa interferência, enquanto professores que acompanham todo este processo, ainda é importante. São realizações gestadas em oficinas e, portanto, frutos de uma parceria de alunos e professores. Quanto mais experiência acumulam, mais autoconfiança adquirem e esse processo de aprendizagem culmina na formação de um grupo de realizadores autônomos e multiplicadores desse conhecimento. O projeto se assume cada vez mais como uma escola de cinema para os índios. Os quatro documentários assim produzidos nos últimos três anos, já se constituem num conjunto de filmes muito originais, uma auto-etnografia indígena cheia de vida e de graça.", conclui Vincent Carelli.

ÍNDIOS, POPULAÇÃO

Foto: Ricardo Stuckert
Índios: População indígena aumenta, mas etnias como a dos ianomâmis não estão ainda fora de risco. Carta ao leitor



A floresta ameaçada



Desmatamento



Diversidade biológica



Pesquisa



Rios



Índios



Cidades



Religião



Economia



Tecnologia



Mata Atlântica



Almanaque da selva




Capa:
A destruição da mata
atinge uma área maior
que a da França

Árvores tombam,
gerando lavouras,
desertos e miséria

A exuberância natural
que atrai curiosidade
e cobiça

Ciência a serviço
do conhecimento e
da preservação

A vida pulsa e se
renova sob um oceano
de fertilidade

Depois de séculos de
agressão, a população
volta a crescer

Um lugar onde a
maioria das pessoas
vive em tribos

Os evangélicos na luta
pela alma dos povos
ribeirinhos

Como tirar dinheiro
da Amazônia sem
destruir o verde

A arma do governo para
controlar as queimadas
e o espaço aéreo

Destruímos a Mata
Atlântica sem tirar
nenhum proveito

Números, volumes,
extensões e curiosidades
da região


montagem sobre fotos de
Marcelo Zocchio e Image Bank

AS 7 PRAGAS DA AMAZÔNIA

1 FOGO
As queimadas causam perdas de 121 milhões de dólares por ano. Considerada a emissão de carbono, os prejuízos chegam a 5 bilhões de dólares.
2 MADEIREIRAS
Há mais de 3 000 empresas cortando árvores. Para cada unidade retirada, os madeireiros danificam pelo menos outras quinze árvores.

3 ESTRADAS
Mais de 80% das queimadas acontecem perto das rodovias. A colonização se dá ao longo de 100 000 quilômetros de estradas clandestinas.

4 GARIMPOS
Além de poluírem os rios e devastarem reservas ambientais, os garimpeiros foram responsáveis pela chegada da aids às aldeias indígenas.

5 PASTAGENS
A soja avança sobre pastos antigos e capitaliza pecuaristas, que abrem novas áreas na mata. Cerca de 12% da Amazônia já virou pasto.

6 CORRUPÇÃO
Só a Operação Curupira, realizada em junho, prendeu 47 funcionários do Ibama envolvidos na exploração ilegal da floresta.

7 BUROCRACIA
De 539 milhões de reais em multas aplicadas em 2004, só 63 milhões de reais foram pagos e apenas 3 milhões de reais ficaram com o Ibama.

Fonte : Especial da Revista Veja . Leonardo Coutinho

domingo, 23 de maio de 2010